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Entrevista com Priscilla Fontes – priscaborda

Entrevista com Priscilla Fontes – priscaborda

 Como o bordado chegou na sua vida?
O bordado chegou à minha vida como uma extensão natural do ambiente em que cresci. Venho de uma casa que sempre valorizou profundamente as artes manuais, não apenas como prática, mas como uma maneira de reforçar nossa identidade e conexão com o mundo. Meu pai, que esculpia em madeira e desenhava, e minha mãe, sempre envolvida com a pintura, eram grandes exemplos desse amor pelo feito à mão. Eu e meu irmão fomos, desde muito cedo, imersos nesse universo, que para nós sempre teve um significado muito especial. O bordado, especificamente, surgiu de forma quase intuitiva, como uma forma de expressão e de preservação da memória. Comecei com miçangas e pedacinhos de tecido que sobravam das costuras da minha avó, e isso me permitiu dar vida a algo único e pessoal. Aos 8 anos, comecei a me aprofundar ainda mais, fazendo pinturas em tecido com detalhes bordados, e isso se tornou uma maneira de criar algo que refletia meu olhar e minha sensibilidade.

 Além do bordado, você produz outra atividade manual?
Sim, além do bordado, tenho uma conexão profunda com outras formas de arte manual. Gosto muito de desenhar, pintar e trabalhar com cerâmica, especialmente nas minhas horas de lazer. Para mim, essas práticas representam momentos de catarse, onde consigo me desconectar do cotidiano e me reconectar com a minha essência. Cada uma dessas atividades, embora diferentes em sua execução, tem em comum a capacidade de me proporcionar um espaço de reflexão e de criação.
Acho que, por meio delas, conseguimos colocar para fora algo que não conseguimos expressar com palavras, e esse processo é extremamente libertador e enriquecedor. O trabalho manual, em todas as suas formas, tem essa capacidade de nos transformar, de nos ensinar a olhar o mundo de um modo mais atento e sensível.

Qual sua técnica favorita de bordado?
Minha técnica favorita de bordado é, sem dúvida, o Ponto de Escama e o Ponto Corrente. Esses dois pontos têm uma grande versatilidade e, para mim, são perfeitos para os tipos de peças que costumo criar, que geralmente ultrapassam os 50 cm. Uma das razões pelas quais aprecio tanto esses pontos é a sua capacidade de deixar o avesso das peças bem limpo, o que ajuda a economizar linha, o que, por sua vez, se alinha com minha busca por alternativas mais ecológicas. Sempre que possível, tento utilizar tecidos reciclados, e esses pontos permitem uma execução mais eficiente, sem abrir mão da beleza e da qualidade do trabalho.
Além da questão técnica, o Ponto de Escama tem um valor afetivo muito forte para mim. Ele foi uma das primeiras técnicas que aprendi com as senhoras bordadeiras amigas da minha avó, em Armação dos Búzios, minha cidade natal. O Ponto de Escama é uma tradição local, e traz em si uma memória afetiva que me conecta com as minhas raízes e com o legado de tantas mulheres que, por meio do bordado, preservam a história e a cultura da região.

O que você acha que falta para o bordado ser mais reconhecido como arte?
Acredito que o bordado, apesar de ser uma forma de expressão artística rica e profunda, ainda carece de um reconhecimento mais amplo como arte, especialmente em espaços mais institucionalizados, como museus e galerias.
Historicamente, o bordado foi, por muito tempo, considerado um trabalho “doméstico” e, muitas vezes, desvalorizado justamente por ser uma prática associada ao universo feminino. Durante séculos, as mulheres foram as principais responsáveis por preservar e transmitir essa arte, mas, paradoxalmente, esse envolvimento das mulheres fez com que o bordado fosse visto, em muitos casos, como algo secundário ou “menor”, comparado a outras formas de arte mais “oficiais” ou dominadas por homens, como a pintura e a escultura.
Para que o bordado seja mais reconhecido como arte, é necessário uma ressignificação dessa prática, que deve ser vista não apenas como uma habilidade técnica, mas como uma forma legítima de expressão criativa e cultural. O bordado, como outras manifestações artísticas, tem a capacidade de traduzir sentimentos, histórias e contextos, muitas vezes de maneira mais sutil e detalhada do que outras formas de arte. Ele carrega, em cada ponto, a memória, as tradições e as questões sociais que marcaram o seu surgimento. Por exemplo, na Idade Média, o bordado era uma das formas mais comuns de expressão para as mulheres, muitas vezes usado para contar histórias, narrativas religiosas ou até mesmo questões de ordem política e social.
Por isso, o que falta, na minha visão, é que as pessoas – principalmente os círculos artísticos e o público em geral – reconheçam o bordado como uma prática que vai além do artesanal. O bordado tem uma força estética e simbólica enorme, e seu valor como arte está diretamente ligado a esse entendimento de que ele é capaz de narrar, provocar e emocionar. Precisamos ampliar a percepção sobre ele, destacando sua profundidade cultural, técnica e emocional, para que o bordado se estabeleça de maneira mais sólida no cenário artístico contemporâneo.
Em qual momento do dia você borda?
A minha rotina é bastante intensa, pois sou professora da Educação Básica e passo cerca de 10 horas diárias em sala de aula. Por conta disso, o tempo que tenho livre é bem limitado, o que torna o bordado um momento ainda mais precioso para mim.
Geralmente, costumo bordar após o jantar, enquanto ajudo meu filho com os deveres de casa. Esse é o meu pequeno “refúgio”, no meio da agitação do dia. Nos finais de semana, tenho a oportunidade de me dedicar ao bordado durante o dia todo, e esse é, sem dúvida, o meu momento mais feliz da semana. É quando consigo me desconectar do cotidiano e me entregar completamente ao processo criativo, sentindo que, por algumas horas, o mundo à minha volta desacelera. O bordado, assim, se torna uma forma de equilíbrio, um tempo que dedico a mim mesma, ao mesmo tempo em que compartilho momentos com minha família.

Você já bordava no Brasil?
Bordo desde os 7 anos de idade. Quando deixei o Brasil, primeiramente para a Geórgia, no Cáucaso Europeu, e depois para Sydney, na Austrália, o bordado passou a ter um significado ainda mais profundo. Ele se tornou uma âncora para a minha identidade, uma maneira de me conectar com as minhas origens em um ambiente tão diverso e distante. Hoje, como professora em uma escola com alunos de mais de dez nacionalidades diferentes, constantemente me vejo tendo que me adaptar a uma nova cultura e a diferentes exigências do currículo australiano. Nesse cenário, o bordado me ajuda a lidar com a saudade e com os desafios de ser imigrante. Ele se tornou um modo de reafirmar quem sou, de manter viva a conexão com minha brasilidade, com a minha história e com os valores que aprendi em minha terra.
O bordado, assim, tem sido para mim mais do que uma arte ou uma técnica – é uma forma de resistência e de resiliência. Ele me permite enfrentar as dificuldades do dia a dia com mais leveza e a sensação de que, por meio de cada ponto, consigo reconectar-me com as minhas raízes e fortalecer a minha identidade, mesmo vivendo longe de casa. É um modo de transformar desafios em expressões criativas e, ao mesmo tempo, de dar visibilidade à história de muitas mulheres e artesãos que, com suas mãos, perpetuam uma tradição de beleza e força.

Na Austrália quais são as técnicas manuais mais populares, muitas pessoas bordam? O trabalho manual por aí é considerado uma arte menos relevante?

Na Austrália, as técnicas manuais mais populares têm uma forte influência das tradições britânicas trazidas pelos colonizadores. O Quilting, por exemplo, é uma das práticas mais estabelecidas e tem uma longa história aqui, especialmente nas áreas rurais. Nos primeiros tempos da colonização, os colonos usavam o Quilting para criar cobertores e peças funcionais, mas com o tempo ele se transformou em uma verdadeira forma de arte, com quilts sendo feitos para decorar e até contar histórias.
Nos últimos anos, no entanto, tem ocorrido um movimento muito interessante com o bordado livre, que tem atraído uma nova geração de artistas e artesãos. Esse tipo de bordado, bem diferente das formas tradicionais, oferece mais liberdade criativa e tem sido explorado por muitas pessoas que buscam uma forma de expressão pessoal através da costura e do tecido. Existem até associações específicas de bordadeiras e grupos dedicados ao bordado livre, que promovem workshops, exposições e publicações sobre o tema.
No estado onde moro, New South Wales, há uma galeria de arte totalmente voltada para as artes têxteis, celebrando o bordado, o Quilting e outras formas de arte feitas com tecidos. Além disso, uma revista digital tem se dedicado exclusivamente à temática das artes têxteis, trazendo visibilidade para essas práticas e colocando-as como parte importante da cena artística contemporânea australiana.
Porém, sem dúvida alguma, a arte mais significativa e emblemática da Austrália, na minha opinião, é a arte aborígene. A arte dos povos nativos australianos tem raízes profundamente ligadas à história e à cultura do país. Ela é muito mais do que uma forma de expressão estética – é uma maneira de contar histórias, de preservar tradições e de se conectar com o território e os espíritos ancestrais. A arte aborígene, que inclui pinturas, esculturas e, mais recentemente, trabalho com tecidos e bordado, tem uma simbologia rica e poderosa, com muitos artistas contemporâneos aborígines usando suas obras para dar visibilidade às questões
sociais e políticas que afetam suas comunidades.
Historicamente, as artes manuais na Austrália, especialmente as influenciadas pelos colonizadores, estavam muito focadas na funcionalidade e na utilidade. O trabalho manual era visto, muitas vezes, como uma habilidade doméstica ou de menor importância, em relação a outras formas de arte mais “elevadas”, como a pintura ou escultura. No entanto, nos últimos anos, as artes têxteis, como o bordado, passaram a ser mais valorizadas, e o trabalho manual, de maneira geral, tem conquistado um espaço mais amplo no mundo da arte, especialmente à medida que movimentos como o bordado livre ganham força e reconhecimento.

Quais são as influências para o desenvolvimento do seu trabalho?
Minhas influências são uma fusão de várias culturas e memórias afetivas. A natureza e o ritmo tranquilo da minha cidade natal, com suas cores e sons, são uma base constante. O folclore brasileiro, os contos e a arte naïf também moldaram meu olhar, trazendo uma dimensão lúdica e colorida ao meu trabalho. Lembro com carinho dos tempos de infância, quando, com meu pai, desenhava caricaturas de pessoas que víamos na rua, e hoje, às vezes, me vejo recriando esses riscos.
Recentemente, percebi uma forte influência dos tapetes persas, especialmente o ponto Susane (influenciados pela cultura do meu marido Persa) e outros pontos aprendidos na Geórgia.

Quais foram os principais desafios que você vivenciou ao longo da experiência com o bordado?
O maior desafio que enfrento com o bordado é conciliar minha carga de trabalho de 50 horas semanais como professora, as responsabilidades como mãe e o tempo necessário para bordar, especialmente peças grandes, de mais de 1 metro. O bordado é uma arte acessível, com baixo custo, o que é uma vantagem, pois cabe no meu orçamento, mas o tempo é sempre um fator limitante. Muitas vezes, para manter uma rotina de 3 horas de bordado por dia, acabo trabalhando de madrugada, o que pode ser exaustivo. Mesmo assim, há bordados que podem levar meses para serem concluídos, exigindo paciência e dedicação. É um equilíbrio delicado entre a vida profissional, a maternidade e a arte, mas, no fim, é a paixão pelo bordado que me impulsiona a seguir em frente.

Onde você busca inspiração?
Meu trabalho é profundamente inspirado pelas cores vibrantes da natureza brasileira, pela energia das tradições e pela essência da minha cidade natal, Búzios ,que é uma pequena vila de pescadores no litoral do Rio de Janeiro. Quando bordo, é como se criasse um vilarejo tropical na minha imaginação, onde cada ponto representa uma celebração, uma festa ou um momento de união do povo brasileiro.
Procuro escolher cores que trazem para a minha arte a vivacidade e a alegria que são tão características da nossa cultura. Cada linha que passa pelo tecido é uma história que se entrelaça com as memórias de infância, as festas populares e o ritmo do cotidiano, criando um retrato de um lugar onde as tradições e as cores da vida se encontram e se renovam.

O que não pode faltar na caixa de bordado? Quais são seus materiais favoritos?
Muitas cores, eu tenho mais de 300 cores e sempre que viajo para um lugar diferente vou atrás de mais cores  mas logicamente uma boa agulha e tesoura não podem faltar. Tenho testado ultimamente bordar com linhas chinesas de cetim e tenho gostado muito da sensação delas deslizando no tecido.

Qual conselho você daria para uma novata?
Meu conselho para uma novata é: comece com uma agulha adequada, como a 22, que é ótima para muitos tipos de tecido, como linho e algodão. Não se preocupe com a perfeição no início; são as tentativas que nos levam à melhora. O mais importante é curtir o processo – os aprendizados da jornada são sempre mais valiosos que o resultado final. Cada ponto dado é uma pequena conquista!
O fortalecimento da nossa comunidade é muito importante para a valorização desta Arte.

 

Créditos de imagens: @priscaborda

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