Digite sua busca e pressione enter
Como o bordado chegou na sua vida?
Comecei a acompanhar perfis pelo Instagram de mulheres que bordavam, por volta de 2015. Acredito que surgiu uma onda de interesse muito impulsionada pelas meninas do Clube do Bordado, na época. Eu estava cansada do meu trabalho (atuava como publicitária). Comecei a desejar ocupar meu tempo com atividades manuais, e a influência dessas referências pelo Instagram e Pinterest veio como um incentivo
para mim.
Não só como experimentação, como passatempo, mas como um vislumbre de uma possibilidade de subsistência fora da publicidade.
Qual sua técnica favorita de bordado? O crochê faz parte do seu trabalho como complemento, ou você também produz peças de crochê?
Não sei se tenho uma técnica favorita. Acho lindas e desafiadoras aquelas técnicas mais “complexas”, como pintura de agulha. Não tenho tanta prática nelas. Contudo, no dia a dia acabo usando técnicas mais básicas, como o Pontos Atrás, Partido e Haste. Eles são um tanto coringa, práticos e flexíveis para diferentes resultados.
Quanto ao crochê, o pouco que sei aprendi com minha avó e por tutoriais da internet e é bem pouco. Confesso que gostaria de ter um pouco mais de domínio. Não produzo peças em crochê, mas recentemente tenho feito alguns barrados em folhas bordadas utilizando essa manualidade.
Uma curiosidade sobre bordar com folhas…
Não é tão difícil quanto parece. É só que nós não costumamos ter tanta intimidade com as folhas secas.
O que você acha que falta para o bordado ser mais reconhecido como arte?
Complexo sintetizar uma resposta. A distinção entre “arte” e “artesanato” é cultural, há séculos entranhada em nossas mentalidades e reforçada por formadores de opinião (mídia, curadores, galeristas, comerciantes, museus). É aquela velha ideia de que o que vem do norte global seria mais valioso e valoroso, de que certas comunidades teriam expressões criativas mais “rudimentares”. Desde as formações dos primeiros antiquários, coleções e “gabinetes de curiosidades” que esse pensamento vem se desenhando – “belas artes” da academia vs. “o resto”.
Mudar estruturas leva tempo. É um esforço coletivo e de longa duração. Talvez, um dos caminhos passe por tomarmos novas bases como modelo de “arte”; bases mais próprias, e insistir. Quanto mais referências vemos de algo, mais aquilo se torna comum e pertencente ao nosso repertório imaginário.
Em qual momento do dia você borda?
Gostaria de ter uma resposta mais exemplar, mas a verdade é que minha rotina é quase inexistente. Bordo na hora que tenho, o que costuma ser mais no período da tarde.
Quais são as influências para o desenvolvimento do seu trabalho?
Sou uma pessoa que pensa demais e que observa muito. O lado positivo disso é que retiro muitas minúcias da minha própria experiência, sentimentos e emoções, para materializar em arte e ver se encontro eco “do lado de lá”, nas vivências de outras pessoas. Além disso, o próprio material me influencia. A cor, as linhas, a textura de cada folha me conta um pouco sobre o que fazer com ela. Trabalhar com a natureza e com o bordado é uma tentativa de trazer um alento, um quentinho mais pra perto do coração.
Quais foram os principais desafios que você vivenciou ao longo da experiência com o bordado?
Os desafios ainda SÃO, acredito que não “foram” por completo. Talvez, em primeiro lugar, tenha sido encontrar em mim permissão para testar esse caminho. Construir a ideia de que o que faço é um trabalho e de que tentar conciliar a vida pessoal com a profissional não faz de mim uma “irresponsável’, uma ”preguiçosa”. São desafios auto impostos, pessoais. Hoje em dia sei que muitas dessas dificuldades enfrentadas enquanto autônoma, enquanto artesã, se dão por conta de um Transtorno do Espectro Autista recém diagnosticado.
Onde você busca inspiração?
Seria mentira dizer que não bebemos de inspirações de outros artistas. Gosto de ver o que outras pessoas fazem no Brasil, na América Latina e no mundo em relação ao bordado, às artes têxteis e no uso de matérias-primas orgânicas. A literatura também me influencia, poder pensar em outros universos. E a própria natureza, minha observação atenta a ela – na medida do possível quando se vive numa megalópole como São Paulo.
O que não pode faltar na caixa de bordado? Quais são seus materiais favoritos?
Pelo menos um dois números de agulhas (p.ex. n.7 e n.12), qualquer tesourinha miúda, linha de meada. Para bordar tecido, prefiro usar bastidores menores, de uns 10cm de diâmetro.
Qual conselho você daria para uma novata?
Seja gentil com você mesma. Isso serve para tudo. Trabalhar com as mãos é uma meditação ativa, uma atividade que conclama várias inteligências e musculaturas do corpo – muitas que às vezes não estamos acostumadas a usar.
Não existe certo ou errado. Não existe bonito ou feio. Existe o seu processo e a sua expressão. Somos capazes de aprender, isso só leva tempo e o querer (que podem variar de pessoa para pessoa). Permita-se saborear o encantamento de criar algo com o próprio corpo.
Crédito de imagens: @a_camelia_