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Entrevista com Regina Luz – @reginaluzbordados

Entrevista com Regina Luz – @reginaluzbordados

Quais técnicas você usa no seu trabalho? Por que os mini bordados são seus favoritos?

O bordado pra mim é a minha técnica central mas utilizo junto a ele, aquarela livre e ilustração pra criar exatamente as ideias que tenho e posso ter mais elementos no meu processo criativo pra alcançar o resultado que desejo. Meu traço sempre foi mais minimalista e muito detalhado, acredito que venha daí o início da elaboração de bordados menores e aperfeiçoamento também deles, cada vez mais reais e mais ricos em detalhes. Os detalhes me chamam a atenção por compor algo maior, então não vejo apenas como mini bordados mas são repletos de significado maior que compõe histórias e paisagens como nas telas maiores por exemplo.

Como o bordado chegou na sua vida?

Sempre estive atenta a trabalhos manuais desde muito pequena, achava fios de arame ou pedaços de vidro, argila de rio, ou pedaços de madeira e criava objetos pessoais ou decorativos para mim. Quis muito aprender crochê e tricô mas não me arrebataram. Mas lembro cada segundo do momento em que minha tia me ensinou a bordar. Ela aprendeu já mais velha e bordava roupas pra vender e aumentar sua renda me ensinando com o intuito de eu começar a ganhar meu próprio dinheiro também quando eu tivesse dezoito anos. Dali em diante não parei mais de bordar, me recordo de um momento começar a bordar a minha saia enquanto a usava ainda no meu próprio corpo, depois bolsas, adornos para cabelos, estandartes, telas, e por fim joias.

Muitos teóricos estabelecem diferenças entre artesanato e arte, qual sua visão sobre isso?

Minha visão sobre o meu fazer artístico e artesanal é algo definido mas que está se construindo também. Acredito que o artesanato é cheio de possibilidades mas pode cair numa repetição de padrões e lógicas que dependem de quem os manuseia, elaborar essas possibilidades tem mais a ver com o artista por trás da matéria prima do que com a própria peça feita. Mas tenho mudado meu olhar, por uma questão cultural entendi a diminuir a definição do que é artesanato, hoje já vejo que são expressões livres e podem se interconectar entre si e complementar ou terem seu próprio papel e função independente muito bem.

Em qual momento do dia você borda?

Costumo bordar em dois momentos, porque preciso, para pagar contas e cumprir as metas e também bordo por prazer, terapeuticamente, criativamente e pra me vitalizar e nutrir das minhas criações mais livres e pessoais e biográficas. E também no meu ateliê com materiais disponíveis de maneira fácil, por conta dos micro detalhes que utilizo preciso ficar muito concentrada e sem muitas distrações, mas o lugar que mais gosto é na companhia de outras bordadeiras.

Quais são as influências para o desenvolvimento do seu trabalho?

Minha influências são as Irmãs Dumont, e também algumas bordadeiras internacionais que são de causar espanto, aqui no Brasil, tenho algumas referências mas a que mais admiro é o Ve Bordados, por ser autêntico, delicado e muito profundo; muito artístico e com personalidade, um dos mais bonitos que já vi. Não sou adepta ao bordado de “copiar e colar”, detesto riscos prontos e que se reproduzem, gosto do Bordado Livre.  Gosto de dizer que não ensino a bordar pássaros perfeitos com técnica de realismo ou Pintura de Agulha, mas ensino minhas alunas a fazerem bordados de pássaros que podem voar, amo o bordado mais ancestral, aquele certinho do avesso perfeito e desenhos de florzinhas, algo bem romântico mas dentro de um contexto das tradições e criações elaborados pelas vivências de um lugar e grupo, e admiro quem brinca com essas tradições também, que permeia esse universo de um forma bem contemporânea e quem me inspira também é o Casa.Obi.

Quais foram os principais desafios que você vivenciou ao longo da experiência com o bordado?

Entre inspirações e referências é desafiador querer estar vivo, viver e criar é algo mais resistente ainda. Quando decidi viver de bordados, decidi isso por não ter opções melhores. Tinha acabado de me frustrar com um grande sonho que realizei, trabalhava com educação e tinha participado da fundação de uma escola com todos os preceitos e receitas ideais pra dar certo, mas não terminou como imaginei e não quis mais seguir no mesmo caminho, e com agulha e linha na mão segui outra direção. Sabendo que se eu tivesse colocado tanta energia em algo que cresceu tanto com minha dedicação, se eu colocasse agora em algo meu, também cresceria. Os desafios não são diferentes em essência das frustrações de qualquer ser humano que quer encontrar, felicidade, segurança e crescimento na vida. Mas por ser pouco trilhado pela maioria, nos vemos mais isolados, julgados e abrindo caminhos que ninguém trilhou, há as dádivas e as angústias de se querer algo diferente. Mas para mim compensa mais que tudo que já vivi até hoje na vida.

Onde você busca inspiração?

Busco inspiração na minha rotina, em mim mesma e acredito que há uma força maior e que me guia, no céu e nas estrelas, na mudança das estações, no que há de melhor das pessoas, procuro sempre me conectar a essa força, de dentro pra fora e de fora pra dentro, a natureza e o encantamento que há na vida me inspiram.

O que não pode faltar na caixa de bordado?  Quais são seus materiais favoritos?

Na minha minha caixa de bordado não pode faltar espaço pra caber todas as cores de linhas possíveis de existir. Assim como no mundo, há infinitas possibilidades de tons, busco o sonho de estar sempre completando minha caixa com diversos tipos de linhas de qualidade, principalmente as meadas mais finas, amo muito trabalhar com linhas de seda também e tintas de tecido pra aquarelar tecidos de algodão cru como se fossem telas antes de iniciar os bordados por cima.

Você é do time avesso perfeito ou não?

Pra mim o avesso não precisa nem ser perfeito ou imperfeito, são como nós mesmos e nossos nós, nossos processos de tentar acertar e formar imagens interiores que falem e expressem no exterior, o avesso pra mim é também parte essencial do bordado.

Qual conselho você daria para uma novata?

Nesse universo de liberdade que o bordado propicia eu daria a quem está começando o seguinte conselho: não siga riscos prontos, não copie, nunca pare por desejo de perfeição, continue e confie no seu processo e no encantamento das linhas, elas também guiam e trazem uma condução que se faz na relação de nossas mãos com nosso coração.

 

Crédito de imagens: @reginaluzbordados

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